Empresas Familiares e a sua capacidade de suportar as incertezas

O filósofo alemão Emmanuel Kant definiu o conceito de inteligência como sendo a capacidade de um indivíduo em suportar as incertezas. Entendemos que tal conceito se encaixa perfeitamente para uma realidade empresarial bastante específica: nos referimos às Empresas Familiares.

Nos últimos doze anos, temos tido uma vivência extraordinária em função do privilégio em assessorar as mais diversas realidades de famílias empresárias pelo Brasil. Um aspecto em especial pelo qual destacamos é a capacidade existente dentro de uma família empresária em suportar e lidar com momentos e períodos de incertezas.

Essa capacidade pode ser verificada nas relações familiares, entre sócios, na própria gestão, além do enfrentamento à instabilidade econômica. Ao mesmo tempo, lamentamos quando tal reconhecimento não é suficiente ou não surge a tempo de reverter um quadro ou período de crise com que a família e os negócios tenham se deparado.

De acordo com a experiência adquirida, afirmamos seguramente que quando os negócios se encontram em períodos ou momentos de crise – o que é recorrente no Brasil – caso as relações familiares se caracterizem de forma saudável, a tendência é de que a família transforme um cenário empresarial complexo em algo altamente positivo.

Do contrário, quando as relações entre os integrantes de famílias proprietárias se encontram em dificuldade elevada, basta um pequeno mal-estar nos negócios para que a descontinuidade familiar, e até mesmo o desaparecimento empresarial, aconteça intempestivamente. 

Diante disso, segue a reflexão: o que configura relações familiares saudáveis quando se tem no centro uma empresa ou negócios para se administrar?

A história mais recente tem mostrado que empresas familiares que têm se perpetuado são aquelas que em nenhum momento renunciaram ao seu propósito e seus valores, isto é, à sua essência.

Mesmo em períodos turbulentos, seja nos negócios ou nos relacionamentos entre as gerações, orienta-se que a agenda seja aberta para que se resgate e se pergunte:

  1. o que de fato é importante para a família e para a empresa?

  2. O que une esses integrantes nesse contexto?

  3. O que mantém a chama da família acesa?

  4. Qual o legado que se quer deixar?

Refletir acerca de tais questões e assumir compromissos em torno delas contribuirá para que se volte a ter relações mais pacíficas e saudáveis. Em termos práticos, isso leva a encarar a empresa como um bem maior, com a tomada de medidas que sejam capazes de beneficiar o todo. Com isso, deixa- se de lado qualquer possibilidade de interesse ou privilégio individual. 

As empresas familiares se fortalecem, como refere Ivan Lansber (especialista em Family Business), na medida em que familiares e sócios estabelecem as mesmas perspectivas, objetivos comuns e com habilidades complementares. O psicólogo alemão Viktor Frankl demonstra a importância dos valores para a continuidade. Segundo ele: “Se tivermos um bom porque viver, encontraremos o como viver”.

Nossa experiência em desenvolver a inteligência de famílias empresárias faz com que sejamos chamados especialmente para os momentos de crise. Essas situações são, para uma família empresária, algo recorrente e real ao longo da sua jornada.

Entre as primeiras perguntas que costumamos fazer está: de que forma a família empresária poderá se organizar e agir? Qual o compromisso de cada um para alcançarem o nível considerado ideal? Para esta questão, o professor John Davis (fundador e presidente da Cambridge Family Enterprise Group) reforça a ideia de que uma crise deve ser encarada com senso de generosidade, onde todos possam se unir em torno de um propósito e otimismo.

Entendemos que de acordo com o que temos trabalhado e estudado nos últimos tempos, que assim como existem uma série de métodos e processos para a gestão empresarial, uma família empresária também necessita de gestão. Neste caso, nos referimos à relação entre e intra gerações, à relação dos familiares com seu próprio negócio, e ao próprio desenvolvimento individual dos familiares.

Se, por um lado, o fortalecimento dos valores, do legado e do propósito são combustíveis para um processo de continuidade, por outro, a comunicação tem se mostrado como algo vital para que relações saudáveis no ambiente da família se efetivem.

Uma característica recorrente do ser humano na cultura ocidental contemporânea é possuir expectativas em relação a outras pessoas. Contudo, temos a tendência de cobrarmos dos outros essas expectativas. Quando essa cobrança ocorre, torna-se grande a possibilidade de desencadear desconfortos, mal-estares, mágoas e ressentimentos.

Em um ambiente familiar empresarial tais possibilidades são reais e costumeiras, sendo um cenário típico ao qual nos deparamos constantemente nas mais diferentes famílias e empresas que assessoramos. Para se gerenciar essas situações, o caminho é simples: basta transformar as expectativas em combinações.

A partir do instante em que se combina algo, pode-se e deve-se cobrar o combinado. No entanto, enquanto tais expectativas não se fizerem acordadas entre as partes, estas também não podem ser exigidas.

Por fim, entendemos que toda a família empresária possui uma missão: a de desenvolver seus integrantes para que encontrem sua real e verdadeira vocação. Que sejam investidos tempo e energia para que os descendentes desenvolvam o seu pleno potencial, seja dentro ou fora dos negócios.

Independente da carreira de cada membro, todos um dia se tornarão sócios. Um sócio que consegue efetivamente gerar mais valor para seu patrimônio e sua empresa será aquele que estiver bem sucedido profissionalmente. Caso contrário, a empresa terá que assumir um problema que não será seu. 

Há muito a ser feito em termos de desenvolvimento, fortalecimento e alinhamento do que realmente faz sentido para empresas familiares. Se trata de um processo de educação. Os primeiros passos é que todos os envolvidos tenham lucidez sobre os porquês e como querem viver nesta relação.