Sucessão de Empresa Familiar: ser ou fazer, eis a questão

“Eu quero me preparar para ser o presidente da empresa”, me respondeu enfaticamente um dos possíveis sucessores apontados pela família como tal. Era o primeiro contato que tínhamos de forma individual . 

Na entrevista seguinte, com um de seus primos, outro possível sucessor, obtive a seguinte resposta ao indagá-lo sobre o processo de sucessão: “Tenho a mais plena certeza que, entre todos nós, os primos, ninguém mais do que eu tem a vontade de ser um grande nome de destaque para a nossa família e para a nossa empresa”, exclamou, batendo no peito.

Realizei as entrevistas programadas com os demais membros desta geração de primos e preparei-me para, na próxima agenda, apresentar um diagnóstico do quadro atual.

Prestar atenção tanto no conteúdo como na forma foi um dos aprendizados que adquiri nesses 11 anos de consultoria com empresas familiares junto a processos de sucessão. E a manifestação dos dois rapazes me alertava para isso.

Enquanto preparava e organizava o material – depois de ler e reler inúmeras vezes, de relembrar como cada um havia se manifestado, a fim de descobrir o que poderia estar presente nesse contexto de forma não tão visível – uma ideia me veio à mente.

Ambos possíveis sucessores referiam “ser”, isto é, “ser o presidente”, “ser um nome de destaque”, no entanto, nenhum fez menção de “fazer” algo pela empresa ou pela família. Com isso, estava traçada a minha linha de raciocínio para a reunião de devolutiva, em que apresentaria minhas impressões e sugeriria um plano de trabalho. 

Iniciei a reunião com pontos mais amenos a serem tratados, até partir dos primos que parecia ser maior dúvida ou curiosidade coletiva. Talvez alguns estivessem presentes ali justamente para ouvir uma espécie de “veredito final” sobre quem eu apontaria como o “grande sucessor”. De forma serena e segura eu disse:

“Ouvi de alguns daqui o desejo de ser algo na empresa, seja um executivo de destaque ou mesmo o novo presidente, o que é algo legítimo e importante. Mas tenho uma outra questão: quantos de vocês, sendo executivos ou não, têm o desejo de fazer algo para a empresa?”. 

Um silêncio reinou no ambiente. Contudo, era um silêncio barulhento, que também comunicava. Alguns minutos depois, com a maior parte dos participantes já recompostos, surgiram os questionamentos e as inquietudes sobre o atual momento, em que precisavam saber quem a família deveria investir como novo ou novos sucessores.

Ponderei meu entendimento sobre o fato de que nosso trabalho deveria seguir por um caminho com mais aprofundamento, sem, no entanto, apontar, naquele momento, quem seria o sucessor.

O que considerei como sendo o mais importante na conjuntura de tal empresa familiar, foi sobre o quanto havia de disposição daquelas pessoas. Ou seja, de que forma e o que cada um poderia vir a fazer pela empresa. Apenas a partir dessas avaliações conseguiríamos construir um modelo de sucessão sólido e de confiança para a família e para a empresa. 

“Fazer pela empresa” envolve não somente os que estão ou os que venham a compor o quadro da gestão. Especificamente no caso de empresa familiar, acionistas e herdeiros têm muito a fazer enquanto deveres e atribuições. Os processos de sucessão considerados exitosos, naturalmente foram tratados e legitimados tanto no âmbito familiar como principalmente no societário. 

Com esta família aprendi que, antes de querer ou pensar em ser algo na empresa, deve-se aprofundar o que se quer fazer pela e para a empresa familiar!